Passei nove anos segurando a mão de outras mulheres.
Sou técnica de enfermagem há nove anos, na UPA de Montes Claros.
Perdi a conta de quantas mulheres vítimas de violência eu atendi no plantão.
Fiz curativo, segurei mãos e ouvi histórias enquanto esperávamos a transferência.
Algumas eu ajudei a salvar. Outras chegaram tarde demais.
Foi só uma mensagem do grupo de plantão.
Eu tinha acabado de chegar de um plantão de doze horas.
Meu marido passou o dia bebendo. Na cozinha, meu celular apitou: passagem de plantão.
Ele viu o nome de um médico e não quis ver o resto das mensagens.
Foi até a pia e voltou com uma faca. Foram sete facadas.
A infecção não espera oito meses na fila.
As sete facadas perfuraram o meu abdômen e a infecção está se espalhando.
Como enfermeira, eu sei exatamente o que vem depois quando não se opera a tempo.
Preciso de uma cirurgia de emergência. Sem ela, em trinta dias meus órgãos começam a falhar.
A fila do SUS para esse procedimento é de oito meses. Eu tenho trinta dias.
Minha filha me salvou. Agora ela dorme com a luz acesa.
A Laura tem onze anos. Foi ela que ligou para o SAMU e me salvou.
Eu só soube disso quando acordei no hospital, dois dias depois.
Hoje ela não entra mais na cozinha e dorme com a luz acesa.
A Laura fez a parte dela. Mas uma criança de onze anos não paga uma cirurgia.